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Causas

Ligação clandestina é a maior causa de incêndios residenciais no AM

Segundo o Instituto de Criminalística do Amazonas, os 'gatos' representam perigo potencial e estão entre principais motivos para incêndios por curtos circuitos no Estado

14/11/2019 09h16
Por: Fernanda Souza
Fonte: Acrítica
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Reprodução
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Além de crime, os chamados “gatos” de energia são um risco para quem faz esse tipo de ligação em casa. Seja quando é feito discretamente, escondido em meio às fiações residenciais ou em um emaranhado de fios nos postes da cidade, o risco de um curto circuito é iminente segundo especialistas.

A cena “comum”, principalmente em área de invasões, é a maior causa de incêndios residenciais no Estado, segundo o Instituto de Criminalística do Amazonas (IC), que faz cerca de 80 perícias de sinistros dessa natureza todos os anos. Esse cenário levanta uma discussão sobre os riscos para a população de um modo geral e sobre de quem é a responsabilidade de coibir a prática.

O engenheiro elétrico Amarildo Lima, representante da Associação Brasileira de Conscientização para os Perigos da Eletricidade (Abracopel) em Manaus, ressalta que, além da irregularidade, as ligações clandestinas são executadas por profissionais não capacitados, o que aumenta os riscos. Até setembro, por exemplo, foram registradas 97 ocorrências de incêndios pelo Corpo de Bombeiros por curtos circuitos em Manaus. 

 “A energia elétrica é extremamente perigosa à vida tanto para quem executa (as ligações) como também para os usuários, uma vez que não será efetuado os dimensionamentos das proteções e dos condutores. Logo, expondo aos riscos todo os empreendimentos e a vida dos que ali residem ou trabalham. Por outro lado, sobrecarrega os alimentadores da concessionária que não tem essa previsão de aumento de carga em seus circuitos, prejudicando assim todos os demais consumidores com constantes sobrecargas nos circuitos”, disse o especialista.

Em relação à responsabilidade para coibir a prática, ele defende ser dever de todas as partes envolvidas uma solução. “Acredito que inicialmente é dever do  poder público, por não extinguir na origem (quando falamos invasões) e inclusive estando presente posteriormente com serviços públicos. Por fim da concessionária, que não efetua as ações para coibir as ligações clandestinas”, opinou.

Já o presidente do Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Amazonas (CAU/AM), Jean Faria, afirma que outros fatores precisam ser observados. “Quando a gente vai pontuar de quem é a culpa, é complicado. Para resolver isso tem que se fazer uma força tarefa entre prefeitura, Estado, com ação de polícia, Ministério Público e a concessionária. A concessionária, ela quer cortar, mas às vezes não consegue porque o traficante não deixa. Então como urbanista eu não vejo uma solução nem a longo prazo; a única solução plausível seria fazer a urbanização correta dos bairros”, defendeu.

Outras causas

Sobre os incêndios periciados, além dos causados pelos gatos, outras causas comuns, identificadas pelo Instituto de Criminalística, estão relacionadas ao superaquecimento de equipamentos e os acidentes provocados por propagação de fogo, como despejo de cigarros em locais inadequados.

Empresa não pode regularizar a luz  em áreas  disputadas na Justiça

Sobre a situação, a Amazonas Energia, empresa concessionária responsável pela distribuição de energia na cidade, afirma que tem avançado no combate às perdas de energia, implantando novos sistemas e tecnologias no combate a esta prática ilegal. Segundo a empresa, as invasões são um grande desafio, no qual a distribuidora precisa do apoio de órgãos públicos, como por exemplo, a prefeitura.

Conforme a empresa, para atender determinada região, é realizado todo um estudo da área e uma programação. As equipes, informou a concessionária, estão analisando juridicamente uma forma de resolver essa situação, que só será possível com o trabalho em conjunto com os órgãos públicos. A distribuidora ressaltou que não pode regularizar o fornecimento de energia em áreas de litígio, onde o morador da invasão não apresenta documento de posse ou condições seguras de pavimentação para instalação de postes e de toda rede elétrica.

A distribuidora afirmou ainda que o combate às perdas de energia só é possível com o envolvimento de toda a sociedade já que o furto e a fraude de medidores são tipificados como crime conforme o Código Penal Brasileiro, nos artigos 155 e 171. Os “gatos”, segundo a empresa, prejudicam todos os consumidores, já que diversas ocorrências de interrupção de energia são provocadas por esta prática ilegal.

Problema além das invasões

Segundo a Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Sustentabilidade (Semmas), o combate às ligações elétricas irregulares é atribuição da companhia concessionária de energia e cabe à Amazonas Energia fazer os devidos cortes, com o apoio dos órgãos de segurança estaduais (polícias Civil e Militar) já que furto de energia é crime.

Questionada sobre o número de invasões, localidades onde mais são registrados casos de “gatos”, a secretaria informou que, do inicio do ano até agora, foram identificados 57 focos, sendo 33 localizados na Zona Norte. As três maiores são a Cidade das Luzes (na Zona Oeste), Monte Horebe (na Zona Norte) e Fábrica de Cimento Nassau (Zona Leste). As ocupações desordenadas, ressaltou a pasta, trazem consigo diversos problemas de ordem social e ambiental.

Na avaliação do  presidente do CAU/AM, Jean Faria,  o problema ainda está longe de ser resolvido. “A única chance de você evitar isso em 100% seria evitando as invasões, que aí você não vai ter esses riscos que acontecem. De que primeiro, as pessoas entram e depois as organizações chegam. Porque ela vai chegar de maneira deficitária. Manaus não consegue ser uma cidade pensada no que tange o crescimento de bairros”, falou.

Assim como Faria, o geógrafo Isaque Sousa pondera que temos uma problemática que está para além das ocupações irregulares. “Condomínios residenciais nobres, a periferia, grandes e pequenos comércios fazem parte deste circuito que utiliza ligações clandestinas, fraudes nos medidores, refletindo que esta problemática não está associada somente às periferias urbanas”, opinou.

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