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27/09/2018 ás 15h19 - atualizada em 27/09/2018 ás 15h25

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Jéssyca Lorena

Manaus / AM

'Fui estuprada aos 16 anos e me calei'
Padma Lakshmi, reflete sobre os códigos de silêncio que permitem que a violência contra as mulheres fique impune por gerações
'Fui estuprada aos 16 anos e me calei'
Reprodução

Quando tinha 16 anos, comecei a namorar um cara que conheci no Puente Hills Mall, em um subúrbio de Los Angeles. Eu trabalhava lá depois da aula, no balcão de acessórios da Robinsons-May; ele, em uma loja de roupas masculinas de luxo. Chegava usando um terno cinza de seda e flertava comigo. Já estava na faculdade e eu o achava charmoso e bonito. Tinha 23 anos.


Sempre antes de sairmos, ele estacionava, entrava, se sentava no sofá e conversava com minha mãe. Nunca me levava para casa muito tarde durante a semana. Éramos íntimos até certo ponto, mas ele sabia que eu era virgem e que não tinha certeza de quando estaria pronta para fazer sexo.


No Réveillon, meses depois do começo do namoro, ele me estuprou.


Fiquei com esse incidente revirando na cabeça a semana passada inteira, depois que duas mulheres se apresentaram para dar detalhes das acusações contra Brett Kavanaugh, indicado à Suprema Corte. Christine Blasey Ford disse que ele subiu sobre ela e lhe cobriu a boca com a mão durante uma tentativa de estupro quando ambos estavam no colégio, e Deborah Ramirez disse que ele se expôs para ela quando estavam na faculdade.


No dia 21, Donald Trump, pelo Twitter, afirmou que se o que Ford dissera era verdade, teria dado queixa na polícia anos atrás. Entretanto, entendo por que as duas mulheres guardaram a informação para si durante tanto tempo, sem envolver as autoridades; eu fiz a mesma coisa. Em 21 de setembro, porém, tuitei o que me aconteceu na adolescência.


Vocês podem querer saber se eu estava bebendo na noite em que fui violentada; não faz diferença, mas, não, não estava bêbada. Talvez queiram saber o que estava usando ou se fui ambígua em relação aos meus desejos; continua não tendo importância, mas eu estava com um vestido longo de manga comprida preto da Betsey Johnson que deixava só os ombros à mostra.


Nós dois tínhamos passado por umas duas ou três festas. Depois, fomos para o apartamento dele. Começamos a conversar, mas estava tão cansada que deitei na cama e caí no sono.


Depois disso, só me lembro de acordar com uma dor aguda, como se tivesse uma faca entre as pernas. Ele estava em cima de mim. Perguntei o que estava fazendo e ele respondeu: "Só vai doer um pouquinho." "Por favor, não!", gritei.


A agonia era insuportável, mas ele continuou. Minhas lágrimas traíam meu pavor.


Depois, ele disse: "Achei que fosse doer menos se você estivesse adormecida." E me levou para casa.


Não o denunciei – nem para minha mãe, nem para minhas amigas, muito menos para a polícia. A princípio, fiquei em choque. Naquela noite, ao chegar, ainda fui dar boa noite para a minha mãe e depois dormir, na esperança de esquecer o que acontecera.


Não demorou para eu começar a me sentir culpada. Nos anos 80 não se falava em "date rape", o estupro cometido pelo namorado, ficante, conhecido. Ficava imaginando o que os adultos diriam: "Mas o que você estava fazendo no apartamento dele? Por que estava saindo com alguém tão mais velho?".


Na minha cabeça, acho que nem classificava o que acontecera como estupro, nem mesmo sexo. Sempre achara que a perda da minha virgindade seria um acontecimento ou, no mínimo, uma decisão consciente. A perda do controle me desorientou completamente. Para mim, quando começasse a fazer sexo, seria para expressar amor, ter prazer ou engravidar – e aquilo não se encaixava em nenhuma das três opções.


Depois vieram outros namorados, no último ano da escola e no primeiro ano de faculdade, mas menti para todos, dizendo que ainda era virgem. Bom, emocionalmente ainda era.


Hoje, quando penso no que aconteceu, percebo que, naquela época, eu já tinha aprendido certas lições. Aos sete anos, por exemplo, um parente do meu padrasto me tocou entre as pernas e pôs minha mão em seu pênis ereto. Logo depois que contei para minha mãe e meu padrasto, eles me mandaram para a Índia, para passar lá um ano com os meus avós. Ou seja: se denunciar, você é expulsa, isolada ou rejeitada.


Essas experiências me afetaram muito, comprometeram minha capacidade de confiar nas pessoas. Levei décadas para conseguir falar sobre elas com meus parceiros e um terapeuta.


Há quem diga que um homem não deve pagar pelo resto da vida por algo que fez na adolescência; acontece que é exatamente isso que acontece com a mulher, e também com aqueles que a amam.

FONTE: Amazonas1

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