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Brasil

03/09/2018 ás 14h24

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Jéssyca Lorena

Manaus / AM

'Perda de acervo é tragédia para humanidade', diz museólogo do AM que realizou pesquisas no Museu Nacional
Pesquisador Saulo Rocha esteve no Museu em abril deste ano e percebeu situação precária do local
'Perda de acervo é tragédia para humanidade', diz museólogo do AM que realizou pesquisas no Museu Nacional
Reprodução

O incêndio que destruiu o Museu Nacional do Rio de Janeiro deixou a comunidade acadêmica de luto. Em Manaus, o museólogo Saulo Rocha, de 25 anos, lembrou de uma ida recente ao local: ele esteve lá em abril deste ano para realizar pesquisas para o mestrado dele em Museologia e Patrimônio. O prédio, situado na Quinta da Boa Vista, abrigava cerca de 20 milhões de itens, dentre eles, uma exposição de longa duração dedicada à Antropologia, especialmente às populações indígenas.


O museu sofria com falta de reforma e orçamento reduzido. Até uma "vaquinha virtual" chegou a ser anunciada para arrecadação de dinheiro. Conforme reportagem do Bom Dia Brasil de maio deste ano, a instituição deveria receber o repasse de R$ 550 mil da Universidade Federal do Rio de Janeiro, no entanto, há três anos só recebia 60% desta verba.


O museólogo conta ao G1 que teve a chance de ver a situação precária do local de perto.


“Sabíamos da situação do Museu Nacional. Eu, quando estive lá, vi pessoalmente os bastidores da instituição e como o prédio estava danificado. Os funcionários do local e os diretores apontavam uma tragédia iminente e recentemente foi comemorado os 200 anos do Museu Nacional, na verdade são os 200 anos do museu no Brasil, e agora essa tragédia. Não temos condições de medir, mensurar, porque foram muitas coisas perdidas", afirma.


Peças amazônicas no Museu


O local tinha peças coletadas no século 19 e que pertenciam ao povo ‘Tikuna’, maior grupo indígena do Brasil e do Amazonas. “É uma tragédia para a história da humanidade, tantas pessoas que eram representadas naquele museu por inúmeras coleções guardadas", lamenta o museólogo.


O jovem diz que o acontecimento vai afetar a sua formação. “Estou concluindo o mestrado com muita tristeza”, disse Rocha, que é museólogo do Museu Amazônico da Universidade Federal do Amazonas (Ufam).


“A perda do acervo é uma tragédia para a ciência, tragédia para a cultura, tragédia para a memória do país, para todo mundo que acredita no museu, na memória, no patrimônio como elementos centrais de qualquer país, qualquer nação, como fontes para elaborar qualquer projeto para o futuro. O passado é fundamental para elaborar os projetos futuros. Nós perdemos essa grande fonte para o futuro”, disse o museólogo.Durante a visita recente que fez ao Museu Nacional, o pesquisador esteve em uma exposição de longo tempo de etnologia indígena, situada no segundo pavimento do prédio, dedicado aos índios.Ainda de acordo com Rocha, o museu abrigava outros objetos da região amazônica, muitos de origens indígenas. Além do Amazonas, o Pará também estava representado no local.


"Durante todo o século 19, o Museu Nacional recebeu muitos artefatos enviados aqui do Amazonas. Por exemplo, eu tive acesso quando fui lá. Ao consultar o livro de registro de objetos do museu, [vi que] havia vários objetos daqui. Havia também uma coleção magnífica de peças marajoaras, da Ilha de Marajó, no Pará, que participaram da exposição nacional antropológica. As cerâmicas foram escavadas por Ferreira Pena e enviadas para o museu no mesmo século", finaliza.


Instituto Mamirauá lamenta perda de acervo


O pesquisador Emiliano Ramalho, do Instituto Mamirauá, também lamentou o incêndio ocorrido no Museu Nacional. "A perda é imensurável e irreparável e expõe nossa incapacidade de valorizar e fazer investimentos estruturais em instituições de ciência e tecnologia, como o Museu Nacional e tantas outras instituições de pesquisa no país", define.


Assim como o museólogo Saulo Rocha, o pesquisador do Mamirauá afirma que a tragédia no museu do Rio de Janeiro era "anunciada há anos". "[O ocorrido] Reitera mais uma vez a necessidade de investimento em ciência e tecnologia no país. O investimento em ciência e tecnologia é fundamental para o desenvolvimento econômico e redução da desigualdade no país e precisa ser colocado como prioridade nas políticas de governo", defende.


O incêndio


O fogo começou por volta das 19h30 deste domingo (2) e foi controlado no fim da madrugada desta segunda-feira (3). Mas pequenos focos de fogo seguiam queimando partes das instalações da instituição, que completou 200 anos em 2018 e já foi residência de um rei e dois imperadores.A maior parte do acervo, de cerca de 20 milhões de itens, foi totalmente destruída. Fósseis, múmias, registros históricos e obras de arte viraram cinzas. Pedaços de documentos queimados foram parar em vários bairros da cidade.As causas do fogo, que começou após o fechamento para a visitantes, serão investigadas. A Polícia Civil abriu inquérito e repassará o caso para que seja conduzido pela Delegacia de Repressão a Crimes de Meio Ambiente e Patrimônio Histórico, da Polícia Federal, que irá apurar se o incêndio foi criminoso ou não.


FONTE: G1/AM

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