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Cidades

11/07/2018 ás 12h56 - atualizada em 11/07/2018 ás 14h44

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Jéssica Senna

Manaus / AM

Venezuelanas pedem emprego em rua de Manaus: 'Queremos sobreviver do nosso suor'
Mulheres e crianças enfrentam calor e fome em busca de emprego, em semáforo da Zona Norte da capital.
Venezuelanas pedem emprego em rua de Manaus: 'Queremos sobreviver do nosso suor'
Ive Rylo

Já se tornou comum ver crianças e adultos que fazem malabarismo, vendem produtos ou pedem dinheiro perto de semáforos em Manaus. Há algumas semanas, imigrantes venezuelanos também passaram a ocupar esses espaços. Eles usam placas com pedidos de oportunidade de emprego. "Queremos sobreviver do nosso suor", disse uma das imigrantes.


Nailin Rodrigues, de 31 anos, desembarcou em Manaus há dois meses, junto a outros mais de 160 imigrantes que deixaram Boa Vista, em Roraima, por meio do Projeto de Interiorização do Governo Federal.


"Deixamos nossa vida em Caracas. Lá não tem emprego, uma cartela de ovos está custando 3.500 bolívares e o salário da semana que recebemos é de 1.500. Por isso enfrentamos o medo, juntamos as crianças e viemos para o Brasil", disse a imigrante Nailin.


Acompanhada da irmã, da sobrinha e dos três filhos, Nailin encontrou na sombra de uma árvore, ao lado de um semáforo localizado na Avenida Governador José Lindoso, Zona Norte de Manaus, um local para descansar enquanto aguarda esperança a sorte de conseguir emprego.


"Já distribuímos currículos, mas ainda não nos chamaram. Estamos atrás de qualquer serviço para comprar as coisas pra nossa família, alugar um local", relatou Nailin.



A família Rodrigues preparou placas com mensagens para chamar atenção dos motoristas de carro. Eles estão há dois dias no mesmo local. Das 7h até 15h, Nailim divide a atenção entre as buzinadas dos motoristas que entregam alimentos e cuidado com os filhos.


O caçula de seis meses e o filho maior, de seis anos, dormem na calçada sob o sol e barulho dos veículos, enquanto a mãe ergue uma placa com um pedido direto: "Preciso de emprego, trabalho, ou uma ajuda de você. Deus é fiel", diz.


Um pedaço de papelão serve de berço para a caçula da família. A filha mais velha, de 17 anos, ajuda a mãe a cuidar dos pequenos.


"Temos medo de estar aqui com nossos filhos. Estamos já há dois meses em Manaus, e ainda não conseguimos empregos. No abrigo nos dão comida, material de limpeza e um local para dormir, mas queremos sobreviver do nosso suor. Por isso viemos para cá", apontou Nailin.


A família está abrigada na Casa Santa Catarina de Sena, que fica no Bairro Petrópolis, Zona Sul de Manaus. O local abriga 120 mulheres com crianças transferidas para a capital pelo projeto de interiorização.


A casa é administrada e apoiada pela igreja católica, que tem hoje cinco abrigos para estrangeiros, com capacidade para 245 pessoas. Os locais estão lotados e não conseguem atender a demanda.


Três dos abrigos administrados pela Igreja contam com apoio do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR) e da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias.


Nailim e a irmã Nays Rodrigues passaram quatro meses em abrigos de Boa Vista. Elas resolveram viajar para Manaus, onde acreditam ter mais chances de melhorar de vida.


"Em Boa Vista eu trabalhava limpando casas. Fazia mais ou menos duas diárias por semana. Ganhava mais ou menos R$ 50. Mas é pouco para sustentar meus filhos", disse.


Ela planeja conseguir um emprego para alugar uma casa para a família e quem sabe poder trazer o restante dos parentes que ficaram em Caracas, cerca de 10 pessoas.


Futura enfermeira


Nays Rodrigues se preparava para cursar o último ano da faculdade de enfermagem, quando teve que arrumar as malas e se mudar com a irmã, a filha de 10 anos e os sobrinhos para o Brasil.


"Em Caracas eu trabalhava como caixa em um mercado. Mas o mercado fechou e não tive como pagar a faculdade. Já estava no terceiro ano. Passamos fome e então resolvi pegar minha filha e vir para o Brasil. Tive medo, assim como temos medo de ficar só na rua com nossos filhos, mas o medo da fome é maior", comentou.


Em Boa Vista ela conseguia cerca de R$ 120 por semana lavando carros, mas não era o suficiente. Na capital amazonense, ela busca trabalho em qualquer área para sustentar a filha e mandar dinheiro para o restante da família que ficou na Venezuela.


"Eles estão passando muita dificuldade lá e quero poder ajudar minha família. Sinto muita falta deles", lamentou.


Poucos abrigos


Somente neste primeiro semestre de 2018, a quantidade de pedidos de refúgio feita por venezuelanos no Amazonas mais que dobrou, quando comparada a todo o ano de 2017.


De acordo com dados da Polícia Federal (PF), de janeiro a 26 de junho deste ano foram 4.779 pedidos, enquanto em 2017 foram 2.301.


A Secretaria Municipal da Mulher, Assistência Social e Direitos Humanos (Semmasdh) informou que a Prefeitura paga aluguel de duas casas, localizadas no Centro e no bairro Alfredo Nascimento. Ao todo 200 venezuelanos moram nos locais. Todos são indígenas da etnia Warao.


O governo informou que o abrigo aos venezuelanos é feito somente pela prefeitura. Entretanto, a Secretaria de Estado de Assistência Social (Seas) apontou que tem destinado recursos ao Município para subsidiar o acolhimento.


 

FONTE: G1

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